Eros, Thanatos, e Ideal do Eu no Conto 'Ligeia', de Edgar Allan Poe
DOI:
https://doi.org/10.31211/interacoes.n50.2026.a6Palavras-chave:
Dualidade da pulsão de vida e da pulsão de morte, Ideal do Eu, Ligeia, Edgar Allan PoeResumo
Ligeia é uma obra literária escrita por Edgar Allan Poe, publicada pela primeira vez em 1838, que retrata um amor obsessivo do narrador – frequentemente interpretado como alter ego do escritor – pela sua falecida esposa, Lady Ligeia, cuja figura ressurge fantasmaticamente no desfecho da ficção narrativa. Nesta investigação, os autores exploram o funcionamento mental do narrador, em analogia autobiográfica com o autor da obra, partindo da hipótese de que a narrativa traduz aspetos significativos da sua vida psíquica, no quadro de uma análise de conteúdo psicanalítico da narrativa centrada nos conceitos freudianos da dualidade de Eros e de Thanatos e da sublimação poética narcísica do eu ideal no ideal do eu.
O artigo é estruturado pela triangulação dos dados recolhidos relativamente ao percurso existencial e literário de Edgar Allan Poe, à desconstrução da trama ficcional da narrativa romanceada e aos conceitos psicanalíticos selecionados, de modo a identificar indícios das suas manifestações no conto, nas suas personagens e no possível funcionamento psíquico do autor.
A análise de conteúdo psicanalítico revelou que a pulsão de morte opera pela compulsão de repetição da experiência traumática da perda originária, reencenada a cada passo na narrativa, sendo finalmente resolvida pela restituição narcísica fantasmática do objeto idealizado, que restaura o eu ideal ferido pela recuperação da elação idealizada associada a Lady Ligeia. Este processo autoriza o eu ideal a manter o investimento idealizado do amor materno originário e concretiza alucinatoriamente, na poética do sonho narrado, o desejo egóico de superação da perda traumática originária. Finalmente, o conto parece configurar a reparação fantasmática de tonalidade onírica (dream-like) do ideal do eu adulto do narrador-autor, ou do autor-narrador, sob o modo do wish-fulfillment que faz reviver fantasmaticamente o objeto perdido, pela sua imortalização pelo sujeito da narrativa.
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